Estive no fim de semana em Camburi, essa incrível praia que faz parte, para aqueles com uma certa idade, das lendárias "as praias". Talvez, meu caro sr(a)., você se lembre dessa promessa: vamos "às praias"!
Faz anos isso, e nós íamos de carro pelas areias de Bertioga, Indáia, São Lourenço, Guaratuba, Boracéia e depois, finalmente, "as praias": Barra do Una, Juqueí, Barra do Sahy etc.
Essas reminicências todas são, também, fruto da caminhada que fiz do Camburizinho até a Barra do Sahy. E caminhando fui pensando sobre um tema que tem me ocupado bastante: a ocupação do território.
As praias mudaram muito, óbviamente, e não é o caso agora de julgar se para melhor ou para pior ou seiláoque. Mas é o caso de observar e pensar. O que se vê é a ocupação dessa faixa de litoral pela burguesia paulistana e, mais recentemente pela burguesia valeparaibana também. E é uma ocupação intensa. A partir de agora, início da primavera, todo final-de-semana é cheio para ir, para ficar e para voltar.
E nos interessa o tipo dessa ocupação; ou melhor, sua tipologia. Que ocupação é essa que vi? Com franqueza, me pareceu de um tipo antigo, uma ocupação feia, excessiva. Não necessariamente feia porque cheia de gentes, mas feia porque cheia de casas e carros.
Me parece que a ocupação dessas praias é de um tipo equivalenete àquela feita nas praias de Ubatuba, grosso modo: loteamentos com casas, terrenos não muito grandes, sem muitas restriçoes à construção e ao paisagismo e, muito importante, com a "frente-para-o-mar" ocupado também por lotes e casas. Isso é feio. Inclusive, no limite, para o supostamente feliz proprietário da casa-de-frente-para-o-mar.
Vou chamar esse modelo de um modelo década de 70.
Existe um outro modelo, mais "avançado", que o paradigma é a ocupação da praia Vermelha do Sul, em Ubatuba. A "praia dos arquitetos". A característica principal são as restrições construtivas e paisagísticas e a reserva da fernte-para-o-mar. É, efetivamente, muito mais interessante, mais bonito, mais gostoso. É uma ocupação muito menos agressiva.
Mas existe um modelo ainda melhor e mais interessante, cujo paradigma é a ocupação da praia do Bonete, em Ubatuba. A "praia dos psiquiatras". Aqui já temos um modelo de ocupação bastante diferente. A grande característica é o urbanismo "arcaico" da ocupação; não existe ruas nem carros, somente trilhas. Não existe própriamente um loteamente mas, antes, uma ocupação por outra classe social das terras e das casas, que são, mais do que tudo, reformadas a partir de um padrão antigo.
É muito mais bonito e interessante.
Um outro modelo ainda é o modelo Ponta Negra. Aos elementos do Bonete se acrescenta mistura social: Se no Bonete houve uma quase integral ocupação pela burguesia paulistana, na Ponta Negra ainda não. A miscelânea prevalesce e isso é interessante. É o modelo do "morro".